Untitled Document

Untitled Document

Untitled Document
Comportamento
Mudar tamanho da letra
  • 19/07/2010 20:19
    COMO NOMEAR O VAZIO? SAUDADE?
     
     
     
    Dentre as variadas emoções (alegria, tristeza, desapontamento, dó, euforia, solidão) temos a saudade. Esse sentimento assola a qualquer pessoa e é mais comum do que imaginamos. Uma música do Cartola, denominada “Peito Vazio” ilustra bem o que sentimos: “Nada consigo fazer quando a saudade aperta. Foge-me a inspiração, sinto a alma deserta. Um vazio se faz em meu peito. E de fato eu sinto em meu peito um vazio”. A saudade descreve sentimentos de perda, distância e amor. Saudade é uma espécie de lembrança nostálgica, lembrança carinhosa de um bem especial que está ausente, acompanhado de um desejo de revê-lo ou possuí-lo. Chega a nos levar à melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou ações.


    Vários foram os poetas que se imcumbiram de escrever sobre a saudade. Também foram muitos os compositores que se apoderaram dela para transcrever suas músicas. Isto nos mostra que mais do que nunca, a saudade faz parte do cotidiano de todas as pessoas. Em muitos momentos é um vazio não nomeado. É uma angústia muitas vezes não identificada. Saudade é agonia. É estar lotado de emoções e ainda sentir o vazio que não se explica. Sentimos saudades de tantas coisas... E, quando ela não cabe no peito, jorra dos olhos através de lágrimas. É uma dor imensa, quase palpável. Saudade não tem cor, mas pode ter cheiro. Não podemos ver nem tocar, mas sabemos o quanto é grande. Pode ser o sentimento que alimenta um relacionamento amoroso ou apenas o que sobra dele. Pode ser uma ausência suave ou um tipo de solidão. Pode ser uma recordação daquele momento e daquela pessoa, que um dia, mesmo sabendo ser impossível, ousamos querer reviver e rever. Saudade é um registro fiel do passado. É a prova incontestável de tudo que vivemos e ficou impresso na alma.


    Há uma crônica de Miguel Falabella que retrata com riqueza de detalhes a saudade, por isso transcrevo-a agora: “Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é a saudade. Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade de um filho que estuda fora. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Doem essas saudades todas. Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.


    Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter. Saudade é basicamente não saber. Não saber mais se ela continua fungando num ambiente mais frio. Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia. Não saber se ela ainda usa aquela saia. Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre ocupada; se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na Internet e encontrar a página do Diário Oficial; se ela aprendeu a estacionar entre dois carros; se ele continua preferindo Malzbier; se ela continua preferindo Margarita; se ela continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados; se ela continua dançando daquele jeitinho enlouquecedor; se ela continua cantando tão bem; se ela continua detestando o Mc Donald's.


    Se ele continua amando; se ela continua a chorar até nas comédias. Saudade é não saber mesmo! Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos; não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento; não saber como frear as lágrimas diante de uma música; não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche. Saudade é não querer saber se ela está com outro, e ao mesmo tempo querer. É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso... É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer; Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo e o que você, provavelmente, está sentindo agora depois que acabou de ler...”


    Bem, como não sou de ferro e também sinto saudades, só me resta apenas cultivá-la e alimentá-la com pensamentos, músicas, perfumes, fotografias, lugares, fins de tarde e madrugadas.


    Drª. Rita Magda Almeida.
    Psicanalista Clínico de crianças, adolescentes e adultos.
    Fones: (032)37213244 ou (032) 88367656
    E-mail: rita.magda@terra.com.br