Untitled Document

Untitled Document

Untitled Document
Comportamento
Mudar tamanho da letra
  • 03/08/2009 14:10
    INVEJA – MEU BEM, MEU MAL.
     
     
     
    Quem pode dizer que nunca sentiu inveja? Embora ninguém admita, a inveja atinge homens, mulheres, jovens, velhos, pobres, ricos, sábios e ignorantes. Se fizermos uma enquete ou perguntarmos junto às pessoas com as quais nos relacionamos, se alguns deles já sentiram inveja, tenho certeza que a grande maioria não irá admitir tal sentimento. Isso ocorre porque desde pequenos fomos educados para ver a inveja como um sentimento pejorativo e feio. Muitos a mascaram com a palavra ciúmes. Existem dois lados da inveja: a inveja saudável que é direcionada por ações positivas: “Se fulano conquistou tal feito, eu também posso fazê-lo”; e, a inveja negativa – àquela que é carregada de ressentimento e desejo de destruição:

    “Fulano realizou tal conquista, mas vai ser por pouco tempo”.


    E quando eu sou motivo de inveja para o outro, como lidar com isso? Primeiramente, seja compreensivo, pois mesmo que você seja alvo da inveja alheia, o outro está apenas querendo dizer nas entrelinhas que admira você e gostaria de ser igual ou que gostaria de possuir o que você tem, e, em segundo lugar, tenha atitudes positivas, seguindo em frente, continuando sua trajetória e perdoando o invejoso.
    Se você pensa que a atitude do invejoso é prazerosa a ele, você está enganado, pois o mesmo persegue uma situação irreal. Por mais que ele se esforce para ser ou ter o que o outro possui, ainda assim, será e terá àquilo que está dentro de suas próprias possibilidades. Todo ser humano é único e irrepetível e o que é inerente a uns, não o é a outros.


    A inveja tem provocado tragédias desde os primórdios, basta nos lembrar de Caim matando Abel. Segundo Feldmam e outros autores, os mesmos descrevem a evolução do conceito de inveja desde a primeira formulação, feita por Freud, sobre a inveja do pênis. Outros autores consideram a inveja como um sentimento complexo, não como um impulso ou um derivativo dos instintos. O alvo da inveja não é o bom objeto, mas o objeto onipotente-idealizado, fantasiado pelo bebê como possuidor de qualidades inatingíveis. A mente do recém-nascido é tomada por uma sensação de perda tão avassaladora que não pode ser pranteada.

    Os autores crêem que neste momento se estabelece um luto precoce, como única forma de tentar lidar com essa sensação. Isso ocorre num estágio em que a diferenciação entre self (eu) e objeto ainda é muito tênue, levando a sensações que os autores denominam "Precursores da inveja". A inveja propriamente dita é um sentimento universal, cuja intensidade depende das interações sujeito-objeto que ocorrem durante o processo de diferenciação. Cada um de nós foi exposto a esse processo de diferenciação, lidando com eles segundo recursos pessoais. Por isso temos pessoas com diferentes graus de inveja.
    É importante ressaltar que podemos estar com inveja ou sermos invejosos. Se estivermos com inveja, podemos mudar nosso comportamento, pois não passa de uma atitude temporária. Mas se somos invejosos, provavelmente o seremos para sempre. O objeto do nosso desejo será sempre o inatingível, o que está na esfera do outro, o que eu posso apenas cobiçar. Mesmo que eu compre algo igual ou semelhante ou me faça igual ou semelhante, ainda assim, eu saberei que o outro o possuiu primeiro e que a lacuna do poder sobre o objeto ainda existe. A inveja é mais devastadora para o invejoso do que para o invejado.


    Vai aí uma grande parábola: “Numa pequena cidade, vivia um grande samurai, já idoso, que agora se dedicava a ensinar o zen aos jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário. Certa tarde, um guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência privilegiada para reparar os erros cometidos, contra-atacava com velocidade fulminante.

    O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma luta. Conhecendo a reputação do samurai, estava ali para derrotá-lo, e aumentar sua fama. Todos os estudantes se manifestaram contra a idéia, mas o velho aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade, e o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seu rosto, gritou todos os insultos conhecidos, ofendendo inclusive seus ancestrais. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo-se já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.

    Desapontados pelo fato de o mestre aceitar tantos insultos e provocações, os alunos perguntaram: - Como o senhor pode suportar tanta indignidade? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar-se covarde diante de todos nós? - Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente? - perguntou o Samurai. - A quem tentou entregá-lo - respondeu um dos discípulos. - O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos - disse o mestre e continuou - quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo”.

    Até semana que vem!
    Drª. Rita Magda Almeida.
    Psicanalista Clínico de crianças, adolescentes e adultos.
    Fones: (032)37213244 ou (032) 88367656
    E-mail: rita.magda@terra.com.br