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Comportamento
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  • 14/04/2009 13:08
    O PAPEL DOS DESENHOS NO COMPORTAMENTO INFANTIL
     
     
     
    É difícil imaginar um indivíduo que não tenha entrado em contato com desenhos animados durante a infância. Não estou me referindo aos das décadas de 20 e anteriores, até a de 50, pois a televisão ainda estava em ínicio de divulgação no Brasil. As crianças daquela época tinham outras alternativas de entretenimento, como as bonecas de pano, os carrinhos de madeira, as bolas feitas de meia. Brincavam coletivamente piques de esconde, queimadas e outros jogos infantis, permitidos à época, pela liberdade que possuíam de estar defronte a suas casas, sem os temores habituais dos seqüestros, furtos, violência física e abusos sexuais. Bons tempos aqueles... As crianças vivenciavam a construção do seu “eu” de uma forma menos agressiva e muito mais lúdica. Os das décadas de 60, 70 e 80, ainda conviveram com os desenhos: Pica-pau, Pernalonga, He-man, Zé Colméia, Corrida Maluca, Tom & Jerry e Pequeno Príncipe. Alguns desses ainda são exibidos, mas já não conquistam tanto a atenção da garotada de hoje.


    A pessoa é uma entidade em crescimento e está se desenvolvendo constantemente a partir das relações de reciprocidade criadas entre ela e os diferentes ambientes que habita. O que chama a atenção no momento são os desenhos e games de violência e até mesmo pornográficos.


    Segundo Neil Postman (1999), o não-saber constitutivo da infância – “as crianças são um grupo de pessoas que não sabem certas coisas que os adultos sabem”, está se deteriorando. Com a entrada franca da televisão que coloca adultos e crianças em pé de igualdade perante a informação, elas se vêem num mundo onde não há mais segredos, “evidentemente, não pode haver uma coisa como infância”. Resumindo-se os argumentos do autor, tem-se que a infância está em vias de desaparecimento porque, diante da televisão, não é mais possível manter-se a contradição adulto que “sabe” versus criança que não “sabe”, que vem se constituindo como fundamento da concepção moderna de infância. É importante destacar que a dimensão apocalíptica dos argumentos que Postman reúne para dar visibilidade ao suposto desaparecimento da infância é explicável em face da gravidade das questões que o afligem, tais como a erotização precoce da criança, a crescente participação infanto-juvenil na criminalidade, o esmorecimento das brincadeiras que constituem a cultura infantil, o empobrecimento das relações entre adultos e crianças, etc.


    Ser criança hoje é mais difícil do que ontem?
    Ainda, segundo Postman, com a liberação social da mulher teria havido “um declínio significativo na força e no significado dos padrões tradicionais de assistência à infância”. Neste sentido, as crianças, na ausência das figuras parentais, ficariam à mercê das chamadas babás eletrônicas. Mas é interessante observar que as crianças de hoje estão no papel de saber partilhando com os adultos quando possível, aquilo que vivenciaram diante da televisão em seus desenhos preferidos. Agora são elas que dizem aos que não sabem (adultos) a nova ética vigente. Os pais e cuidadores devem se aproveitar desse momento e criar o laço necessário para a educação. Para Jobim e Sousa (2000), a criança precisa do adulto, enquanto um “alter”, como um “outro” diferente, para se constituir como sujeito e se lançar continuamente para além de si mesma em busca de seus projetos e utopias. Por outro lado, a criança também encarna um “alter” para o adulto. Sendo a infância a humanidade incompleta e inacabada do homem, talvez ela ainda possa nos indicar o que há de mais verdadeiro no pensamento humano: a sua incompletude, mas, também, toda a criação que se prenuncia, ou melhor, a invenção do possível.



    Assim, se não podemos interferir diretamente no sistema de produção televisiva – uma das formas culturais mais poderosas do capitalismo pós-industrial –, que impõe às crianças e aos jovens o risco da massificação e da subordinação cultural, nada nos impede de “fabricar” maneiras de driblar esse risco. As crianças constituem-se, a partir de suas preferências pelos desenhos, em comunidades interpretativas, e cabe a nós poder colocar nosso pé dentro dessa comunidade para poder entender e construir com ela o sentido dos desenhos, para que sejamos participantes desse espaço e não invasores. Ainda como educadores, devemos observar atentamente o que Charles Chaplim nos disse: “Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura.”


    Até semana que vem!



    Drª. Rita Magda Almeida.
    Psicanalista Clínico de crianças, adolescentes e adultos.
    Fones: (032)37213244 ou (032) 88367656
    E-mail: rita.magda@terra.com.br