Ao abrir meus e-mails no final de semana, me deparei com uma belíssima mensagem de autoria desconhecida, que me fez refletir sobre o que realmente está acontecendo com os nossos valores e com a humanidade. Assim como eu, tenho certeza de que muitas outras pessoas ficam se perguntando à mesma coisa. Vou transcrevê-lo, agora: “Quero voltar a ser feliz... Pois fui criada com princípios morais comuns. Quando criança, ladrões tinham a aparência de ladrões e nossa única preocupação em relação à segurança era de que “os lanterninhas” dos cinemas nos expulsassem devido as batidas com os pés no chão quando uma determinada música era tocada no início dos filmes, nas matinês de domingo. Mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos eram autoridades presumidas, dignas de respeito e consideração.
Quanto mais próximos, e/ou mais velhos, mais afeto. Inimaginável responder deseducadamente à policiais, mestres, aos mais idosos e autoridades. Confiávamos em todos os adultos porque todos eram pais e mães de todas as crianças da rua, do bairro e da cidade. Tínhamos medo apenas de escuro, de sapos e de filmes de terror. Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo que perdemos. Por tudo que meus netos um dia temerão. Pelo medo no olhar de crianças, jovens, adultos e velhos. Matar os pais, os avós, violentar crianças, seqüestrar, roubar, enganar, passar a perna, tudo virou banalidades de notícias policiais, esquecidas após o primeiro intervalo comercial.
Agentes de trânsito multando os infratores, são exploradores, funcionários de indústrias de multas. Policiais em blitz são abuso de autoridade. Regalias em presídios são matérias votadas em reuniões. Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos. Não levar vantagem é ser otário. Pagar dívidas em dia é bancar o bobo, anistia para os caloteiros de plantão. Ladrões de terno e gravata, assassinos com cara de anjo, pedófilos de cabelos brancos. Professores surrados em sala de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em nossas janelas e portas. O que aconteceu conosco? Crianças morrendo de fome! Que valores são esses? Carros que valem mais que abraço, filhos querendo-s como brindes por passar de ano.
Celulares nas mochilas dos recém saídos das fraldas. TV, DVD, vídeo games... O que vai querer em troca desse abraço meu filho? Mais vale um Armani do que um diploma. Mais vale um telão do que um papo. Mais vale um “baseado” do que um sorvete. Mais valem dois vinténs do que um gosto. Que lares são esses? Jovens ausentes, pais ausentes. Droga presente! E o presente? Uma droga! O que é aquilo? Uma árvore, uma galinha, uma estrela, ou uma flor? Quando foi que tudo sumiu ou virou ridículo? Quando foi que eu esqueci o nome do meu vizinho? Quando foi que olhei nos olhos de quem me pede roupa, comida, calçado sem sentir medo? Quando foi que me fechei? Quero de volta a minha dignidade e a minha paz. Quero de volta a lei e a ordem. Quero liberdade com segurança! Quero tirar as grades da minha janela para tocar as flores! Quero sentar na calçada e ter a porta aberta nas noites de verão. Quero a honestidade como motivo de orgulho.
Quero a vergonha, a solidariedade. Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olho no olho. Quero a esperança e a alegria. Teto para todos, comida na mesa, saúde a mil. Quero calar a boca de quem diz: “a nível de”, enquanto pessoa. Abaixo o “TER” e viva o “SER”. E viva o retorno da verdadeira vida, simples como uma gota de chuva, limpa como um céu de abril, leve como a brisa da manhã! E, definitivamente comum, como eu. Adoro o meu mundo simples e comum. Vamos voltar a ser gente? Discordar do absurdo. Ter o amor, a fraternidade e a solidariedade como base. A indignação diante da falta de ética, de moral, de respeito...
Construir sempre um mundo melhor, mais justo, mais humano, onde as pessoas respeitem as pessoas. Utopia? Não... Se você e eu fizermos nossa parte e contaminarmos mais pessoas, e essas pessoas contaminarem mais pessoas... hein? Que sabe?...”
Então... não precisamos repensar? Caminhamos a passos largos para um caos social onde não haverá mais regras, sentimentos, "humanicidade" - neologismo que arrisco para definir um certo sentimento de pertinência ao que há de mais humano em cada um de nós, que nos une a quase todos. Não podemos permitir que a banalização da violência, do sexo e das coisas essenciais ao ser humano venha nos destruir. Se continuarmos anestesiados, estaremos assinando a sentença de destruição do nosso presente e futuro. Como George Bernard Shaw disse tão sabiamente: “O maior pecado contra nossos semelhantes não é odiá-los, mas ser indiferente a eles: esta é a essência da desumanidade”.
Até semana que vem!
Drª. Rita Magda Almeida.
Psicanalista Clínico de crianças, adolescentes e adultos.
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